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Artigo
04/05/2006 -
 

Quando comecei a pensar sobre o que escrever para inaugurar este espaço, veio-me à cabeça tudo sobre o que não escrever. “Não vou escrever sobre o mieloma, sobre factores ambientais agregados a um possível factor genético, sobre diagnóstico diferencial, sobre estatísticas de sobrevida pós-diagnóstico. Não vou escrever sobre raças propensas à doença”. Esta palavra – doença – foi como um freio às minhas recusas. Não sou médica, portanto, não estou oficialmente autorizada a discorrer sobre doenças. OK! Só que não é este o factor que me impede de fazê-lo, e sim, a minha visão profissional sobre a questão doença. Eu explico: não consigo ver a doença sem o doente, sem a parceria de uma relação com uma pessoa. Então, eu não quero escrever sobre a doença e, na verdade, nem sobre o doente. Eu quero escrever para a pessoa que, de repente, se soube portadora de uma doença grave que, por ainda ser incurável, mesmo que tratável, a coloca sob a ameaça de um risco fatal. Uma ameaça que talvez a deixe em pânico, angustiada, a sofrer. Uma ameaça que, talvez, tenha roubado a sua alegria e o seu direito a fazer planos, de sonhar com um futuro.

Então, mesmo sendo difícil, eu não tenho como não falar sobre a morte, esse pesadelo que nos dá medo, independentemente dos consolos religiosos. Nós temos medo porque entendemos a morte como o fim da vida, o nunca mais para sempre de tudo o que conhecemos. A morte, concretamente, faz isso tanto para a pessoa ameaçada como para os seus familiares. Por mais racionais que sejamos, por maior que seja a nossa intelectualidade, os nossos conhecimentos, por mais que a nossa cultura transcenda por limites místicos, a ideia do fim assusta. O estar preparado não faz com que doa menos quando ocorre uma doença, quando acontece uma perda.

Eu tenho medo e não gosto de pensar no fim da vida que conheço. Mais ainda, acho injusto que pessoas boas sofram; dói-me saber que uma criança já nasce condenada por alguma doença, alguma deformidade; não tenho respostas aos tantos “porquês” que me ocorrem em muitos momentos de sofrimento.

Eu não tenho mieloma e, a princípio, nenhuma doença alarmante, mas tenho um longo histórico de perdas. Nem por isso eu aprendi a sofrer menos ou a sofrer melhor nestas horas, e é deste lugar humano que eu mais compreendo o que se passa quando uma pessoa ouve do médico a notícia de que ela tem uma doença grave. Seja ou não dada com cuidado, com delicadeza, a notícia torna a morte uma possibilidade real. Por mais forte que a pessoa seja ela vê, numa fração de segundos, o seu mundo desmoronar-se.

Mas eu quero contar-vos uma história, um facto real, para mim, duro de lembrar. Não se trata de uma daquelas histórias comoventes e lindas que circulam pela Internet. Eu tive um médico que era campeão em artes marciais e outros desportos, activo, com aquele aspecto higiénico de quem se cuida, também, através de uma alimentação saudável. Desenvolvemos uma forte relação médico-paciente. Uma vez encontrei-o num supermercado e dei por mim a tentar esconder dele as minhas compras. Eu explico o porquê: um dia procurei-o porque queria emagrecer, sabendo desde logo que qualquer necessidade de um paciente seu era tratada com a mesma atenção, independentemente do nível de gravidade. A minha preocupação para com a minha saúde física e estética mereceu dele a mesma atenção dedicada às preocupações dos seus pacientes com cancro. Isso acontecia devido à sua visão psicossomática do Homem e das suas doenças, que o guiava na sua prática médica. Bom, ele ficou muito desanimado quando soube que os meus fins-de-semana às quintas-feiras à noite. Com expressão séria, ele disse: “Gláucia, você precisa de mudar esses hábitos, precisa de levar uma vida alimentar mais saudável. Nós somos o que comemos. O que entra pela nossa boca estabelece a qualidade da nossa vida presente e futura. Decide como nós vamos viver ou morrer”.

Naquele momento, nenhum de nós dois tinha ideia do quanto ele estava certo: o que nós ingerimos decide não apenas como vamos viver ou morrer, mas, se vamos viver ou morrer. Ele morreu, há pouco tempo, por ingestão, ainda inexplicada, de arsénico. Eu fiquei chocada, triste, e sabendo do seu domínio na identificação de sintomas, deduzi que ele teve tempo suficiente para perceber o que lhe estava a acontecer. Na minha fantasia, esta sua percepção deve ter doído mais e deve tê-lo matado primeiro. Foi então que eu chorei.

Bem, a vida, desde aquela minha consulta continuou; ele, saudável, desapareceu, enquanto eu continuo aqui a lutar contra o meu sobrepeso. Não faço a mínima ideia de como anda o meu prazo de validade, como ele também não sabia nada sobre o dele, só que soube dar-me um prognóstico de probabilidades negativas.

É essa questão da probabilidade do tempo de vida que talvez determine um diferencial entre quem joga e quem não joga com um diagnóstico fechado. Quem tem um diagnóstico pensa mais nesse prazo do que quem não o tem, só que, para nenhum dos dois existem certezas absolutas quanto a isso. As surpresas são frequentes. As excepções podem tornar-se na regra, e esta é uma conversa para outra altura.

 Agora, o momento do diagnóstico, além de concretizar o facto do risco anunciado, pode também ser um momento para a tomada de uma decisão: como lidar com a vida a partir dali!

Ninguém quer falar sobre um fim real; nem pacientes, nem familiares; nem médicos, nem psicólogos, nem prestadores de cuidados. Talvez seja mais fácil manejar máquinas, químicos, entender sobre o que pode aliviar dores físicas e assegurar um grau relativo de conforto, porque as nossas dores subjectivas, que a medicação não cala, colocam-nos frente a frente com nossa impotência.

Não escolhemos e não planeámos sofrer. Mais ainda, não escolhemos e não planeámos morrer. Mesmo a escolha do suicida não é pela morte, e sim, pelo fim de um sofrimento. Quando a ameaça do fatal bate à nossa porta vivemos uma série de reações que se alternam de uma maneira absolutamente pessoal: negação, perplexidade, raiva, depressão.

Por isso, lidar com o morrer é pessoal, é particular, depende de cada um, mas nada nos impede de tentar encontrar uma maneira de dividir isto porque, seja por uma razão ou por outra, todos nós procuramos encontrar uma maneira melhor de lidar com o viver.

Até a próxima.

Gláucia Telles Sales, entre outras coisas, psicóloga.

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