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Artigo 46
23/01/2009 -
 

Olá

 

O calendário de 2009 começou implacável, privilegiando a pressa que o tempo parece que passou a ter, pois, já estamos quase encerrando janeiro. Dei uma espiadinha rápida no artigo anterior e, pasma, li que nele eu lhes desejava um Feliz Natal.  

 

Há uma música, de Reginaldo Bessa (cantor brasileiro), que diz assim:

 

o tempo não para no porto,

não apita nas curvas,

não espera ninguém.

 

Talvez o tempo sempre tenha agido desta maneira e nós é que não percebíamos. Digo ‘nós’ porque imagino que eu não seja voz solitária, que isto se dê, também, com muitos.

 

Bem, a questão é que, rápido ou não, o tempo passado desde o último artigo foi suficiente para muitos acontecimentos: pessoas partiram, pessoas chegaram; tragédias aconteceram, bênçãos também;  alguns perderam, outros ganharam; uns permaneceram em situações nas quais sempre estiveram, enquanto outros se encontraram onde jamais imaginaram estar.

 

Houve quem riu muito e há quem ainda chora.

 

É a vida de cada um seguindo o seu curso.

 

Como está o curso da sua?  Você fez planos novos para este novo ano, ou apenas reciclou os antigos? 

 

Li a mensagem de final de ano de Christine e percebi que ela, entre linhas, passa um recado para que se manifestem, dêem notícias, participem e até ajudem, de alguma forma, a IMF, que só existe porque vocês existem. Lendo a mensagem fiquei pensando que não é fácil dar notícias quando, no fundo, no fundo, o que se quer é ouvir uma notícia apenas: chegou-se à cura do mieloma! Seja no papel de quem recebe a notícia, seja no papel de quem é o portador da notícia.

 

Todo o resto pode parecer bobagem, conversa inútil, nada que tenha importância.

 

Há um problema e tudo gira em torno dele. Há uma doença e ela passa a administrar a vida, delimitando todas as possibilidades e as impossibilidades. Ela dá o tom da alegria e da tristeza. Redimensiona os sonhos, as expectativas, os pensamentos, os sentimentos. Parece que não há outro assunto.

 

Conversando com um doente há seis anos atrás ele me disse: “o negócio é viver um dia de cada vez e viver como dá”. Conversando com este doente um dia desse, ele me disse: “o negócio é viver um dia de cada vez e viver como dá”. Fiquei pensando que a parte mais significativa da colocação dele é o “viver como dá”. 

 

É absolutamente normal que as pessoas idealizem maneiras excelentes de aproveitar o tempo, de chegar a tal idade com certas condições gerais, de planejar determinado panorama de vida para determinado momento. Isto talvez se dê, também, com a população de regiões atingidas por tempestades, por furacões, por terremotos, por nevascas, por bombardeios, por ex-familiares ensandecidos em virtude de separações, ou mesmo atingidos por crises no mercado financeiro.

 

Acompanhei pela mídia tragédia recente ocorrida no Brasil e muitas imagens mostravam pessoas andando aqui, ali, pegando um objeto do chão, vasculhando entulhos ou apenas olhando, passivamente, para um vazio onde antes se localizava a sua casa. Algumas estavam em estado de choque porque o vazio que olhavam abrigava, horas atrás, toda a sua família.

 

Enquanto eu olhava, penalizada, aquele cenário de tragédias, minha imaginação viajava. Eu pensava a respeito da fragilidade da vida e da sua condição de ser uma caixinha de surpresas, lembram-se?

 

Fosse o que fosse que aquela gente estivesse vivendo, planejando esperando fazer, nada, nem na mais criativa possibilidade de previsão, teria chegado perto daquela realidade que se instalou.

 

Pensei, na seqüência, que nenhum “se isso”, “se aquilo” serviria como ferramenta de reconstrução.  Agora cada plano, cada movimento, cada intenção, para serem auxílios reais, precisariam considerar os fatos a partir desta nova realidade.

 

Isso me lembra o mitológico pássaro Fênix, a quem se creditava a capacidade de renascer das próprias cinzas, além de ser capaz de carregar grandes cargas, grandes pesos.  Talvez tais capacidades estivessem apoiadas em um dos mais úteis sentimentos humanos: a esperança. A Fênix simbolizava a esperança.  

 

Eu poderia ter dito “um dos mais belos sentimentos humanos”, ou ter atribuído qualquer outro adjetivo a esta condição lendária, mas preferi “útil” porque é principalmente assim que vejo a esperança: algo capaz de nos tirar do limbo de nossas tragédias pessoais e nos ajudar na continuação de nossas vidas, um dia de cada vez e como dá, como disse meu paciente.

 

Assim, desejo do fundo de minha esperança, que cada um possa se transformar em verdadeira Fênix em seu dia a dia, apesar de todo peso, apesar de todo medo, apesar de todas as incertezas.

 

Até a próxima

 

Gláucia Telles Sales   

 

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